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RETRATO DO ARTISTA COMO CELEBRIDADE – Parte 1

15 dez

O querido Clóvis Campelo, macabeu e colaborador em potencial lá da Cidade Poética do Recife, nos enviou esse artigo maravilhoso. Clóvis, acho que precisarei voltar pra essa terra que eu amo tanto pra coletar material pra revista e conhecer esse grupo da qual tenho orgulho de participar que é os POETAS INDEPENDENTES.

 

Beijo do Jerico e dos Macabeus

 

 

 

 

Paula Sibilia

 

Que um mal-estar afeta a arte contemporânea, isso todo o mundo já sabe, ou, no mínimo, que esta deveria sentir-se afetada, pois essa inquietação a vem assombrando a tempos. Mas esse incomôdo é até bem-vindo; o verdadeiro problema reside em ignorá-lo, fazendo de conta que tudo continua do mesmo jeito. Entretanto, pelos menos desde que Marcel Duchamp resolvera exporem um museu o agora famoso urinol por ele assinado, sacudindo os alicerces empoeirados da cultura burguesa, sabe-se que a arte já não é o que era – e talvez nem deva sê-lo.

 

Muita coisa se passou ao longo do último século, tanto dentro dos museus como fora deles. O curioso é que, após o desmoronamento do templo da Arte rematado pro aquelas vanguardas que já são históricas, e após todos os certificados de óbito concedidos ao Autor, ao Artista e aos Museus, o panorama da criação contemporânea que oferecem os meios de comunicação (e que o mercado entroniza) não podia ser mais sacralizador de todas essas pomposas figuras.

 

Assim, por exemplo, em meio a esse exército de mortos muito vivos, nestes alvores do século XXI, o britânico Damien Hirst ganhou o cetro do “artista vivo mais bem cotado do mundo”. O feito ocorreu quando uma de suas instalações de remédios coloridos se converteu na obra maias cara de um autor não falecido.

 

Trata-se de uma peça integrante da série conceitual “Quatro Estações”, composta por dois pares de vitrines de aço inoxidável e vidro, repletas de pílulas de diversas cores que aludem a cada uma das estações do ano. Na obra correspondente à primavera, 6.136 comprimidos multicoloridos foram alinhados nas estantes com primorosa precisão geométrica. É precisamente essa instalação, confeccionada em 2002, que foi vendida por quase US$ 20 milhões em meados de 2007, marcando recordes históricos em um leilão da loja Sotheby’s.

 

Damien Hirst tem pouco mais de 40 anos de idade e pertence ao seleto grupo conhecido como “jovens artistas britânicos (YBA, pela sigla em inglês), que lidera a cena global há uma década, desde que o puiblicitário Charles Saatchi comprara todas suas obras e as expusera na Royal Academy de Londres.

 

Essa mostra escandalizou muita gente, ganhando o glamouroso rótulo de “shock art” para encher as sedentas fauces da mídia. Entre os chocados espectadores figurava o pitoresco prefeito de Nova York naqueles tempos, Rudolf Giuliani, que se manifestou energicamente contra a exibição. Assim, como um verme que foge orgulhoso da Grande Maçã, as obras atravessaram a ponte sobre o East River e foram expostas, com considerável sucesso, no Museu de Arte Moderna do Brooklyn.

 

O reluzente títuto de “artista vivo mais caro do mundo” não é uma surpresa, pois há vários anos que as peças assinadas por este autor atingem cifras estratosféricas. A fim de satisfazer a enorme demanda que suas obras despertam no mercado, Hirst administra uma equipe com mais de cem assistentes para a sua elaboração: um time composto não apenas de operários e artesãos, mas também de químicos, taxidermistas, biólogos e engenheiros. Ele raramente coloca as mãos na massa.

 

Comenta-se, inclusive, que não costuma visitar ateliês com muita frequência, apenas supervisiona tudo a partir de um elegante estúdio localizado no centro da capital britânica. A despeito das convulsões que essa produção industrializada poderia provocar na atribulada definição contemporânea da atividade artística, ele garante que o “importante é a idéia, não a sua execução”.

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Publicado por em dezembro 15, 2007 em Uncategorized

 

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